“Ao acordar pela manhã, pense no privilégio de estar vivo: respirar, pensar, desfrutar, amar”. Embora popularmente atribuída a Marco Aurélio, essa frase é uma paráfrase moderna inspirada em seu livro ‘Meditações’, e, mesmo que tenham se passado dois milênios desde que ele a escreveu, podemos aplicá-la perfeitamente ao nosso dia a dia.
A paráfrase do filósofo Marco Aurélio condensa vários pilares fundamentais do estoicismo tardio. O primeiro é um memento mori, mas invertido.
O conceito de memento mori (lembra-te de que morrerás) é usado no estoicismo como uma ferramenta de esclarecimento, pois, quando interiorizamos a efemeridade das coisas, o superficial desaparece e resta apenas o importante, alto e claro.
“Você poderia deixar a vida neste exato momento. Deixe que isso determine o que você faz, diz e pensa”, escrevia ele. Mas esse privilégio de estar vivo é, para o filósofo, um critério de urgência moral, uma forma de se preparar para o dia e cumprir nosso dever como seres humanos, que para Marco Aurélio não é outro senão ser virtuosos.
Não é que Marco Aurélio falasse do privilégio de estar vivo como uma sorte, mas sim como uma obrigação. No estoicismo tardio, a vida é vista como uma missão da natureza que devemos cumprir com virtude.
O que Marco Aurélio propõe não é escrever um diário de gratidão, mas sim levantar-se para cumprir o ergon, ou seja, o próprio papel humano.
Sua visão de que a primeira vitória do dia não depende de conquistas externas, mas de tomar consciência de nossa própria existência, está intimamente relacionada ao fato de buscar a virtude como um dever humano.
De fato, em seu livro, ele diz que “ao amanhecer, quando te custar levantar-te, tem em mente: eu me levanto para realizar a obra de um ser humano…”, e acrescenta depois: “Não vês as plantas, os pássaros, as formigas… que cumprem sua função?”.
A citação também reflete o princípio central do estoicismo, a dicotomia do controle, que diz que não podemos controlar o mundo, mas sim nossas reações diante dele, e que a felicidade ou o bem-estar dependem de nosso julgamento, não das circunstâncias.
Começar o dia pensando no privilégio de viver é uma espécie de ato de autogestão mental. É nossa primeira decisão própria, a de encarar o dia com um olhar mais otimista; além disso, na psicologia positiva atual, a prática da gratidão é um dos exercícios mais comprovados empiricamente e com mais benefícios.
Marco Aurélio dizia que “não ajas como se fosses viver dez mil anos. A morte inevitável paira sobre ti. Enquanto viveres, enquanto for possível, sê virtuoso”. Para o filósofo, essa virtude começava por compreender o privilégio de continuar vivo mais um dia.